Porque todo homem tem a parte térrea e a parte oceânica

Nautikon, uma palavra inventada, um neologismo entre tantos criados pelo poeta e escritor mineiro João Guimarães Rosa. Na crença por atenuar os limites entre a linguagem e a expressão, de encurtar o abismo entre a experiência e a narrativa, o assimilado e o interdito, o autor criou incontáveis palavras. Vinham de um som que lembrava outro, da fusão de outras duas, de um termo de outra língua, da necessidade de aproximar o erudito do popular.

Nautikon foi criada para nomear seus diários pessoais, mais precisamente, intitular uma espécie de escrita fluida e ainda nova para o autor que aparecia abruptamente nas suas observações mundanas de fatos casuais. Dizia ele que, depois de certo ponto, a linguagem ficava coagulada na gente, como um trombo na veia que precisava sair.

Entre as muitas ocorrências do uso de Nautikon em seus diários, algumas relatavam enigmas lançados ao outro perguntando qual o real significado dessa estranha palavra, as mais reveladoras são quando Rosa busca justificar sua gênese. Dizia o autor, ao retomar sua simbologia marítima: porque todo homem tem a parte térrea e a parte oceânica. Para ele, essas duas partes além de coexistentes em cada um de nós, seriam fundamentais na existência de um diário, de um Nautikon, uma prática cotidiana de investigação da linguagem que nos permite "evitar os recifes da incessante tempestade de nossa vida interior".

Para o pintor santista Mauricio Adinolfi, seu Nautikon emergiu numa série de experimentos pictóricos pós-pandêmicos que o reaproximaram da figuração. A dualidade entre o térreo e o oceânico, além de uma metáfora para a investigação das camadas mais profundas do indizível, era parte constitutiva de sua ancestralidade, de sua formação, das bases de seu referencial imagético e afetivo. O artista percorreu profícuos caminhos no entendimento minucioso da cultura caiçara, da iconografia marítima e naval, desvendou os meandros da construção de embarcações, atuou junto às comunidades em projetos colaborativos. Um percurso extenso que parecia fazer-se mais presente em seus primeiros trabalhos em que aliava a abstração geométrica a essa iconografia, ou em suas instalações em que empregava relações em escala com elementos navais. Agora, em duas exposições concomitantes e com diferentes recortes, Teoremas e Cão em Liberdade o artista traz à tona essa dualidade entre o térreo e o oceânico em sua produção, apresentando conjuntos de trabalhos que, ao observador desavisado pode parecer não correlatos, mas que guardam um extenso cerne em comum.

Para o conjunto de trabalhos apresentado em Cão em Liberdade, o resgate de fragmentos em madeira das embarcações de suas antigas instalações ganhou nova vocação ao abrigar essa nova série de pinturas em menor escala. O gatilho aparentemente racional e objetivo de reaproveitamento desse material como suporte deu ao artista um novo ensejo. Ainda que o preparo cauteloso da madeira servisse como uma espécie de rito e que Adinolfi colocasse a si o desafio de testar a aplicabilidade da cor por meio de camadas sucessivas de tinta ainda molhadas, algo do acaso vinha à tona e tomava a cena como se essas espessas camadas suscitassem uma briga entre as matérias e que o atrito fosse um dos elementos determinantes para o processo.

Desse Nautikon, ou melhor dizendo, desse diário pictórico construído por Adinolfi, toda a lógica e o controle constitutivos da prévia de seu processo criativo parecem se esvair em prol de algo que advém do acaso, do instintivo e do obscuro. Ao observador, por mais que alguns percursos e referências tornem-se visíveis e evidentes, seja pela citações do artista a obras icônicas da história da arte ocidental, seja pela ressignificação de elementos e composições; é possível afirmar que, em muitos casos, eles parecem ser secundários diante do desvelar de sua fatura pictórica.

Excertos de Malevitch, Manet, Goya, Morandi, convivem com objetos cotidianos, latas de cervejas, caixas de fósforos, maços de cigarros e copos. Para Adinolfi, tudo é objeto de investigação e representação. Ausente de hierarquias, a sujidade e o resto podem desencadear, assim como a mais "nobre"; das referências, um problema pictórico. É na fricção das matérias, no tensionamento dos limites, no uso de paletas inesperadas, na transposição da violência gestual e no emprego de equipamentos improváveis que reside algo que é lhe inerente e peculiar.

A esta altura, cabe aqui uma ressalva particular. Talvez pela natureza íntima das passagens, ou pelo caráter fragmentado dos excertos, o Nautikon de Guimarães Rosa só veio a ser publicado póstumamente. O curioso é que muitas dessas anotações dedicaram-se também a uma espécie de filozoofia, com descrições elaboradas e observações atentas a animais das mais diversas espécies. Rosa parecia adentrar no corpo desses animais para relatar sua vivência.

O Nautikon de Adinolfi analogamente também trouxe consigo alguns primatas, roedores e moluscos. A representação desses animais, muitas vezes, assumia um caráter autônomo do conjunto, como se fossem figuras que pertencessem a uma imagética que ora ou outra reapareciam para o artista. Os pêlos dos mamíferos representaram novamente um desafio matérico: como era possível transpor textura, peso, linha, forma ao plano pictórico? Dessa investigação, Adinolfi encontra na escavação e no desbastar da madeira um caminho, traz o machado, a furadeira e a serra para o universo do ateliê, ressignifica a relação com o suporte e seus limites.

Talvez, a palavra limite seja a que guarda maior maleabilidade no Nautikon de Adinolfi. Não são claros os limites entre o espaço pictórico e o ateliê. As atmosferas se fundem, assim como as referências coletadas em imagens e os atentos desenhos de observação. Tal qual a série em que se autorrepresenta metamorfoseado em uma criatura deitada, Adinolfi é parte gestual dos trabalhos, em que a matéria acumulada evidencia sucessivas impressões de vigor sobre espessas camadas de tinta. Há algo de úmido, cálido e empoeirado que paira sobre os elementos, que mesmo a mais vivaz das paletas ainda deixa transparecer ao observador. Dessa indiscernibilidade de limites é que o artista expressa sua convicção de que o lugar da arte não é o da exatidão, mas da invenção de fusões, atritos e neologismos.

Os neologismos de Adinolfi aqui expressos primam para um outro lugar da beleza, para um olhar atento ao popular e aos limites das convenções estabelecidas. O artista transpõe o ordinário à categoria do excepcional para estabelecer novos caminhos, uma fusão entre o labor e o impulso, entre o tátil e o voraz, entre o leve e o escaldante. Como se o porvir fosse a mescla entre a graça e o grunhido que antecedem o instante em que o cão se lança em liberdade.


Priscyla Gomes
Curadora e pesquisadora em artes visuais e arquitetura. É curadora sênior do Instituto Tomie Ohtake. Graduada e mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP), possui especialização em Arte e Filosofia (PUC). Atualmente, é doutoranda em Estética, Historiografia e Crítica na USP. Em 2020, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria “Artes”.