O avesso do rio: Caronte 7 Voltas no Beco do Pinto

Caronte 7 Voltas, intervenção de Mauricio Adinolfi no Beco do Pinto, traz à tona um mundo esquecido da cidade de São Paulo: seus rios. Ao bombear a água de uma nascente que corre sob o Solar da Marquesa de Santos, para escorrer continuamente sobre um barco, faz com que as águas do Tamanduateí subam a colina histórica. Nesse movimento, retoma a narrativa das águas para confrontar a ação humana sobre o espaço.

Não por acaso, essa narrativa remete à figura de Caronte, barqueiro da mitologia grega que, pelas águas dos rios Estige e Aquedonte, transportava as almas dos mortos em direção ao inferno de Hades. Na temporalidade geológica em que vive a malha hídrica da metrópole, esses mortos têm mais de um século. Eles nos lembram que, ao adentrar o Beco do Pinto, estamos próximos na última curva das sete voltas do Tamanduateí.

“Rio de muitas voltas”, aliás, é uma das traduções do seu nome na língua dos povos originários. Outras traduções remetem à presença dos tamanduás nas suas margens, o que ecoa sua primeira designação, rio Piratininga, ou rio do peixe seco. Aparentemente díspares, todas essas acepções remetem à presença da característica mais particular do Tamanduateí: suas curvas, invisibilizadas pelos processos de retificação e aterramento.

Sendo o Tamanduateí um rio de meandros, quando as águas baixavam, os peixes ficavam represados entre suas poças, favorecendo a pesca na sua várzea, mas também a multiplicação dos formigueiros, o que atraía os tamanduás para a atual área central da cidade. Há que se considerar ainda, que os tamanduás inscritos em seu nome podem fazer referência a saberes ancestrais. Em uma lenda indígena dos povos Guarani e Kaingang, são os tamanduás que ensinam os homens a dançar e a cantar.

A relevância dos fenômenos hídricos do velho Piratininga para a vida social fica evidente quando se lembra que a cidade de São Paulo foi inicialmente batizada pelos primeiros colonizadores com o seu nome (Vila de São Paulo de Piratininga). A cidade nasceu colada à serpentina do Tamanduateí no antigo Centro. De Debret a Benedito Calixto, passando por fotógrafos como Militão de Azevedo e Guilherme Gaensley, várias imagens registraram as lavadeiras do rio, seus barcos, e até mesmo a Ilha dos Amores. Não menos importante era a sua função econômica, articulando bairros e outras cidades pelas suas águas. Um dos poucos rastros desse tipo de uso do rio na São Paulo atual é a Ladeira Porto Geral, onde as embarcações atracavam para abastecer o Mercado Grande, que ficava onde hoje é a rua 25 de Março.

Outro indicador da presença do rio Tamanduateí são as históricas enchentes que ele protagonizou, seguindo à risca um modelo predatório de modernidade. Nele se cruzaram a ocupação de suas margens, a especulação imobiliária, o rodoviarismo e um sistema hidrelétrico construído pela Light & Power, que interferiu radicalmente na Bacia do Alto Tietê, alterando os cursos dos principais rios paulistas – o Pinheiros e o Tietê.

Nesse conjunto de intervenções da engenharia que impactaram o ecossistema do estado como um todo, e da cidade em particular, destacamse as feitas no rio Tamanduateí, que se iniciaram no fim do século XIX. Retificado e canalizado, ao longo de décadas, suas águas ganharam uma velocidade que não tinham, o que fez com que, em épocas de chuva, transbordasse invadindo, não poucas vezes, a avenida dos Estados e os bairros da Zona Leste mais próximos do centro de São Paulo.

Com 35 km, o rio Tamanduateí, que nasce na cidade de Mauá, se ramificava em 43 afluentes, que tampouco sobreviveram na metrópole de asfalto e pedra, tendo sido, em grande parte, convertidos em canais de esgoto que correm sob as avenidas e as casas. Em alguns trechos, esses riachos se rebelam, surrupiando todas as travas que foram lhes sendo impostas. Um deles é a misteriosa nascente que brota do fundo do Solar da Marquesa de Santos. Saindo de trás da casa das máquinas do elevador, implantado em uma das últimas reformas do casarão da Marquesa, um fio d’água contínuo jorra incessantemente, descendo em direção à várzea do rio, aterrada sob o Parque D. Pedro II.

Há aí um inequívoco estado de “beleza convulsiva”. Verso/conceito do poeta surrealista de André Breton, essa beleza em convulsão se explicita em uma famosa foto anônima publicada no número 10 da revista Minotaure (1937), editada por Breton, que retrata uma locomotiva sendo tragada pelo mato. Essa foto ilustrava um texto/manifesto de Benjamin Peret, intitulado “A natureza devora o progresso e o supera” (“La nature devore le progrès et le dépasse”), que questionava a onipotência da técnica e o cientificismo dominante.

Talvez o surrealismo tenha antecipado uma discussão cara ao debate atual, sobre a necessidade de revisarmos a oposição entre natureza e cultura, para pensar outras ecologias e uma concepção sistêmica do meio ambiente. Não cabe aqui discorrer sobre esse tópico, mas ele tangencia a visão da proa de um barco que, de ponta cabeça, do alto da colina histórica, faz as águas de uma nascente amordaçada aparecerem no Beco do Pinto.

Mauricio Adinolfi tem longa relação com a dimensão social das águas. A lista de obras em se dedica aos modos de fazer dos trabalhadores do mar e dos rios cobre um arco diversificado de propostas de mais de 10 anos. Ele já levou barcos ao Copan, implantando uma tonelada de refugo de madeira de embarcações na sua fachada (Sobre Mar, Madeira e Outros Animais, 2009). Expandiu as estéticas das pinturas dos pescadores, colorindo, em mutirão, as palafitas da comunidade do Dique, no bairro da Vila Gilda (Santos – SP), e atracou barcos caiçaras em diferentes contextos, como em Marina (2016), no edificio sede da Cultura Inglesa, em São Paulo. Em seus trabalhos sobre o mar e os rios, Adinolfi vem discutindo, também, as catástrofes do capitaloceno, como em Calado do Cais (2016), quando fincou uma série de barcos nas areias da praia do Gonzaga, chamando a atenção para o impacto do aprofundamento do canal do porto de Santos na Ponta da Praia, hoje praticamente inundada pelo mar. Com o Caronte 7 Voltas ele escreve outra página dessa história fúnebre de nossas águas, em sincronia com um momento em que vivemos uma aguda crise hídrica no país.

O crítico Hal Foster interpretou a beleza convulsiva do surrealismo como beleza compulsiva, chamando a atenção para uma pulsão de morte que seria subjacente ao seu erotismo. Não sei se concordo com essa interpretação, mas ela me parece uma chave de acesso à intervenção de Adinolfi do Beco do Pinto. Se o sonho maior de André Breton era que o surrealismo chegaria a um grau tal de libertação da sociedade, que se tornaria o próprio real, é difícil discordar de Foster quando afirma que foi o oposto o que ocorreu: o real é que se tornou o surreal pelo avesso, transformando o disruptivo em força disciplinar do delírio. Contestando a força da inércia e sem nostalgia de um passado mítico, o Caronte 7 Voltas escorre, beco abaixo, procurando outros caminhos para pensar a ressignificação do espaço e outros possíveis futuros da cidade.

Giselle Beiguelman