Corpo que inunda, tempo que transborda.
Aqui dentro, o mar. Num prédio comercial, no coração financeiro de São Paulo, a Avenida Paulista. Aqui, onde o tempo pulsa acelerado, irrompe um outro tempo — o tempo das águas de Maré, de Maurício Adinolfi.
Nas duas telas, lado a lado, um barco de madeira paira em frente ao mar, suspenso nos galhos de uma imensa amendoeira que emoldura a paisagem à beira mar. Corpo náutico deslocado em seu próprio lugar, transborda o que parece nele não caber. Ao seu redor, a vida: crianças, pescadores, capoeiristas. Pássaros, latidos de cachorros, vento e ventania. São pequenos gestos de permanência e improviso diante da fluidez inevitável das horas do dia.
Tempo tempo tempo tempo¹.
O tempo das marés, que não acelera nem atrasa, apenas cumpre seu ciclo. Ou o tempo da cidade, que se impõe, que corre, que esgota. O tempo incendiado da cultura, que transforma o espaço e impõe ao mundo moldes artificiais, deslocando tudo aquilo que não cabe em sua lógica.
Vilém Flusser, em Natural:mente, leu a cultura como estratégia contra a natureza, um artifício que tenta domesticar o mundo e impor-lhe significados². Mas e quando o mar entra? Quando o tempo das águas atravessa o concreto e desloca o que parecia fixo?
Corpo que já não pertence inteiramente nem bem à terra, nem bem ao mar.
Habita um entrelugar, escorre entre o natural e o cultural — não como oposição, mas como infiltração.
O navegador quando morto é uma entidade com quem se pode sonhar indefinidamente, sua lembrança é sempre um porvir e, muitas vezes, o barco é o único vestígio que resta de sua existência.Na cidade, o tempo que se acumula e se consome. Aqui, navegações movem-se na lógica da eficiência, enquanto o mar opera no ritmo de um pacto mais antigo. A maré sobe e desce sem urgências, sem demandas. E, às vezes, como agora, encontra seu modo de transbordar e nos invadir e nos lembrar que na cheia, inunda e vaza.
Giovanna Bragaglia
Notas
¹ Referência à música Oração ao Tempo, de Caetano Veloso.
² “A observação da chuva pela janela é acompanhada de sensação de aconchego. Lá fora, os elementos da natureza estão em jogo e sua circularidade sem propósito gira como sempre. [...] Quando observo a chuva pela janela, não apenas me encontro fora dela, mas em situação oposta a ela. Tal situação caracteriza cultura: possibilidade de contemplação distanciada da natureza.” (FLUSSER, Vilém. Natural:mente. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 35).